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Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

14.Abr.07

A EMERGÊNCIA MÉDICA

Ontem estive na primeira aula do módulo de Suporte Básico da Vida, integrante da disciplina de Introdução à Medicina. É impressionante como uma intervenção rápida poderia evitar muitas das mortes por paragem cardiorrespiratória.

O CODU – Centro Operacional de Doentes Urgentes – é onde estão as pessoas que nos respondem quando recorremos ao número nacional de emergência médica: 112. Este número e este centro operacional, através da triagem que operam e do accionamento de meios para o local, salvam vidas. No entanto e infelizmente, nem sempre é devidamente utilizado pelas pessoas, que a ele recorrem por situações banais como dores de dentes ou unhas encravadas, quando a linha se destina exactamente a situações de perigo de vida.

 

O operador, poupando o máximo de tempo possível e, muitas vezes, acalmando mesmo o seu interlocutor (a quem as perguntas parecem uma insignificante perda de tempo), vai fazendo perguntas que se revelam importantes para a triagem e consequente percepção dos meios necessários de assistência em cada caso: “O que é que se passa?”, “Qual a idade do doente?”, “O doente está consciente?”, “Ele sofre de alguma doença?”, “Qual o local da ocorrência?” … Na realidade, estes 30 segundos de inquérito revelam-se importantíssimos na gestão de recursos e num adequado envio de meios em cada situação. Estes critérios permitem também, quando ocorrem emergências simultâneas e em locais semelhantes, seleccionar o tipo de assistência ou, até mesmo, quando apenas é possível assistir uma das vítimas, “escolher” aquela que aparentemente terá maior probabilidade de sobreviver, tendo em conta o estado descrito pelo interlocutor.

 

“Em Medicina e em emergência, apesar de todas as vidas terem o mesmo valor, precisamos de saber qual a situação mais grave em cada momento.”

Dr. Nelson Pereira (director Emergência Médica)

 

Nem sempre é fácil o estabelecimento desta relação operador-interlocutor. Na verdade, a aflição e o desespero, numa situação de emergência, podem bloquear o contactante, ao mesmo tempo que a necessidade de respostas imediatas dificultam a vida ao operador do CODU.

 

“A nossa função aqui é salvar a vida o mais rapidamente possível, mesmo tendo de lutar contra a ignorância e falta de cooperação do contactante. Muitas vidas são perdidas precisamente porque as pessoas não colaboram.”

Rita Marques (operadora de atendimento)

 

É neste sentido que me parece importante uma maior sensibilização da população em geral. Aliás, a formação seria uma aposta que salvaria muitas vidas. Por exemplo, deveriam ser divulgados cursos gratuitos de formação em Suporte Básico da Vida, que se pode revelar vital para um indivíduo em paragem cardiorrespiratória.

Há toda uma cadeia de sobrevivência que é importante ser mantida e, que, na ausência de uma formação mais generalizada, vai continuar a ser quebrada e a provocar mortes. Por muito eficiente que seja o serviço nacional de emergência, quando se trata de uma pessoa em paragem cardiorrespiratória, os primeiros momentos são determinantes e a execução de manobras de SBV, antes da chegada da assistência especializada, poderiam salvar mais uma vida.

 

“As pessoas deviam saber como se faz uma reanimação e

de como esse gesto simples pode salvar uma vida.”

Rita Marques

 

Inicialmente, a pessoa que vai socorrer a vítima deve ver se tem condições de segurança e só depois se pode aproximar. Se possível, deve também tentar perceber o que se passou, para poder ter um cuidado particular com a mobilidade da vítima se supuser ser um caso de trauma. Depois, abanando ligeiramente o acidentado, vê o seu estado de consciência. Se estiver inconsciente é importante que se grite por ajuda, pois se alguém aparecer as manobras serão mais fáceis de executar. Depois colocando uma mão na testa do doente e com a outra levantando o maxilar inferior, devemos proceder à abertura da via respiratória e aproximar a nossa face para ver os movimentos torácicos, ouvir e sentir a respiração, tal como o pulso carotídeo, para confirmar se há paragem cardiorrespiratória.

 

Caso se confirme, devemos ligar imediatamente para o 112 e responder adequadamente às questões colocadas, informando que vamos prosseguir com as manobras de SBV. Depois alterna-se a massagem cardíaca com a ventilação.

Por cada 30 compressões, procedem-se a 2 insuflações. As compressões permitem a manutenção de algum fluxo sanguíneo, para substituir o papel do coração no bombeamento sanguíneo; a ventilação procura compensar a paragem respiratória.

 

 

“Valeu à vítima o suporte básico de vida precoce, aquando

 da paragem cardiorrespiratória, o que permitiu haver

um grau de oxigenação cerebral e mesmo miocárdica.”

Dr. Nelson Pereira

 

Só se interrompem as manobras de SBV se estivermos exaustos, o doente manifestar qualquer sinal vital ou chegar a ajuda especializada. Se o doente recuperar o pulso mas não respirar, devem proceder-se a 10 insuflações com intervalos de 5 segundos, se recuperar o pulso e a respiração, mas continuar inconsciente, deve ser colocado na posição lateral de segurança.

 

 

O Suporte Avançado de Vida é levado a cabo pela assistência especializada.

Existem ainda alguns casos particulares, como o de politraumatizados em que não deve ser feita a extensão do maxilar inferior aquando da ventilação e em que o indivíduo também não deve ser colocado em posição lateral de segurança, tentando-se manter o máximo possível a imobilidade da sua coluna cervical. No caso de se tratar de uma mulher grávida (particularmente no último trimestre de gravidez), deve ser colocado um calço no lado direito, por debaixo da sua anca, durante a execução das manobras de SBV.

 

 

Por fim, no caso de se tratar de uma criança ou de um afogado e, porque, em ambos é grande a probabilidade de a paragem ser de origem respiratória e não cardíaca, antes de se ligar para o 112 devem levar-se a cabo 5 insuflações e 4 ciclos de 30 compressões/2 ventilações.

Quando se liga para o 112, a chamada é inicialmente atendida por um centro da polícia e, só em situações de saúde, a chamada é rapidamente reenviada para o CODU. A linha está continuamente disponível e, neste momento, tem uma cobertura de 100% em Portugal Continental.

Tendo o operador feito a ficha da vítima com base na informação do contactante, há um médico regulador que tem de decidir a necessidade ou não de enviar meios e o tipo dos mesmos.

 

 

Em certas situações um aconselhamento é suficiente; noutras, os equipamentos têm de ser enviados, consoante as necessidades da vítima e a disponibilidade dos mesmos. No final, é o operador de accionamento que dá “luz verde” aos meios disponíveis e mais próximos da vítima para que sejam activados para o local da ocorrência. As equipas que se dirigem para o local, e que incluem TAE, médicos e enfermeiros, são previamente avisadas pelo CODU e é-lhes fornecida toda a informação necessária: estado de saúde da vítima, local e pontos de referência.

 

 

Entre os meios disponíveis do Instituto Nacional de Emergência Médica incluem-se a VMER (Viatura Médica de Emergência e Reanimação), tripulada por um médico e enfermeiro, que contém material capaz de simular, em terreno, uma sala de ressuscitação.

                           

É accionada em situações de perigo iminente. Além desta, existem motas tripulada por um TAE – Tripulante de Ambulância de Emergência -, que possuem um desfibrilhador e que permitem perfurar mais rapidamente o trânsito; helicópteros (existe um em Lisboa e outro no Porto) que permitem fazer chegar ao local uma equipa médica; ambulâncias que são tripuladas por TAEs e são accionadas nas situações em que não existe compromisso das funções vitais.

“Uma situação de emergência não é só tratar o doente,

há toda uma questão de logística, tão simples como

tirar a vítima de casa e levá-la até à ambulância.”

Dr. Nelson Pereira

 

Assim, é importante uma maior sensibilização das pessoas para a importância do número nacional de emergência e casos em que deve ser utilizado, tal como para a importância da colaboração da pessoa que relata a ocorrência com o operador de CODU. Ao mesmo tempo, seria fundamental um maior investimento na formação da população em manobras de SBV que poderiam evitar mortes desnecessárias e, assim, realçar a palavra de ordem: prevenção.

“O processo de emergência começa quando as pessoas o identificam

 uma situação de potencial gravidade, até ao momento em que as

vítimas entram no hospital. O nosso trabalho termina e aí começa

 a fase hospitalar de diagnóstico e tratamento do doente.”

Dr. Nelson Pereira

 

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